Reportagem: Aurea, GNR e Ricardo Gordo no Festival do Crato

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De faixas distintas para um público idêntico, GNR e Aurea assinalaram mais uma grande noite de música no Festival do Crato, neste que foi o terceiro dia do festival alentejano.

Os GNR regressaram ao Crato numa das atuações mais aclamadas por um público rendido a este rock n’ roll que acompanha mais do que um marco de uma geração. Naturalidade de Aurea encantou até os mais desatentos com uma voz repleta de alma.  

No terceiro dia da 29ª edição de Festival do Crato, o ambiente vivido designava-se meramente familiar, onde jovens e seniores conviviam com o mesmo espírito festivaleiro para mais uma noite dedicada, não só à música, como à gastronomia e artesanato regionais. Esta é, podemos declarar, uma das maiores particularidades de um festival que conduz à vila do Crato, milhares de pessoas por dia.

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A abrir as hostilidades da noite, o palco do festival cumpria novamente a tradição, trazendo mais um dos artistas da região. Desta vez, o dever de abertura para mais um dia de festival pertencia a Ricardo Gordo com o seu mais recente projeto “Fado Metal”. Se o espírito vanguardista na arte musical se acha delicado, Ricardo alcança um outro nível ao combinar o próprio fado com o metal através do choro de uma modesta guitarra portuguesa. Eram cerca de 22:15 quando o músico entrava em palco acompanhado pela sua comitiva. “Verdes Anos” de Carlos Paredes dava início a uma atuação que transbordava sentimento de tema para tema.  O fado e o metal têm o suspense em comum, uma dramatização que o artista interpretou ao sentar-se na frente do palco quando comparecera. A saudação de boa noite após o primeiro tema conduzia à aproximação do público à medida que soltava melodias de tom enigmático. Enigmático, decididamente a melhor forma de caracterizar este Fado Metal. Demonstrando orgulho na banda que o suportava, Ricardo chamava assim Irene Ferreira na interpretação do tema, “Melancolia”. Agradecendo inúmeras vezes a um público extraordinário que refletia no olhar o sentimento de uma guitarra portuguesa, Ricardo despedia-se após uma hora de concerto na qual, nem um espaço do palco ficara esquecido.

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Já são 33 anos que marcam uma carreira invejável por parte dos veteranos do rock n’ roll português, GNR. A banda liderada por Rui Reininho regressava ao Crato para uma noite muito especial, onde o seu “Afectivamente” ganhava destaque para uma das melhores atuações do festival. O público já se manifestava ligeiramente impaciente quando “Popless” entrava em cena seguida pela primeira ovação da noite. Como qualquer estrela de rock com carisma instantâneo, Reininho já interpretava aquela que consideramos a sua personagem de palco acompanhada por um humor indiscutível, ao bom nível do Norte. Agradecendo a boa receção do público no seu regresso ao Crato, surgia o seu primeiro convidado com duas versões distintas de “Verdes Anos” e “Canil”. Fala-se de Stereossauro. Campeão de scratch e melhor que David Guetta, já afirmava Rui Reininho em “Las Vagas”, num momento mais adiantado da noite. A atualidade não foge à realidade dos GNR ao dedicarem “Asas”, êxito de carreira e um dos momentos altos da noite, aos bombeiros portugueses.

Chegava a vez de Mitó de A Naifa entrar em palco ao som de “Valsa do Detectives”. Recebida por um caloroso aplauso, a artista acelerava o ritmo de um público aprazido, acompanhada por palmas constantes e ritmadas. Pelo meio, havia tempo para mais um momento de humor por parte de Rui Reininho que elogiava o rock n’ roll nacional, dizendo que Justin Bieber teria pouca importância. A união de registos ia ligando um tema a outro e a noite avançava sem darmos conta que o tempo voava. E é então que surge Márcia com a sua acústica e uma “Cabra Cega” num à vontade especial. Uma simplicidade que cativa e conquista através daquela voz doce que canta em bom português. A ilustrar a sua participação, ocorria o tão esperado dueto em “Morte ao Sol”, digno de tirar o chapéu de muitos os que se encontravam no público. Tal como a gente com “Pronúncia do Norte”, o Alentejo também acompanhava o tema em uníssono de pulmão bem cheio abrindo espaço para o último mas não desvalorizado convidado da noite, Camané. A saltar já o tempo de agenda, a audiência não se parecia importar ao pedir mais e mais, com direito a encore e “Dunas” à mistura. Os GNR despediam-se do Crato com promessa cumprida de uma noite aclamada como especial, num “Afectivamente” vivido.

aurea

Após tanta espera, chegava finalmente o momento que todos esperavam, com algum atraso provocado pela extensão das atuações anteriores. Porém a espera aumenta o êxtase, e a entrada de Aurea em palco comprovava o facto. De vestido azul, pé descalço e maquilhagem a condizer, a artista surgia num palco com uma naturalidade que se resume numa simpatia honesta por detrás de uma voz pujante do soul. Entrando ao som de “What’s Best For You” do seu “Soul Notes”, a artista encantava com sorrisos de empatia com um público que se não seria, ficaria fã no final desta sua performance.

A primeira cartada da noite ocorria com o single “Scratch My Back”, diretamente do seu segundo álbum de estúdio. Indiferente não ficou a multidão que recheava o recinto, cantando numa só voz o refrão num entusiasmo que se notava não só pela voz, mas também nas suas expressões de agrado. Seguia-se “Don’t You Dare To Touch Her” que acalmava os ânimos por momentos. Momentos quase escassos numa atuação repleta de fascínio. O seu súbito êxito numa carreira ainda curta entende-se quando se assiste a uma atuação como esta, repleta de instantes felizes. Agradecendo com modéstia e ternura, esta voz do soul português ia apenas ganhando terreno para uma melodia mais intimista que refletia uma história de amor, afirmava ao dar inicio a “Nothing Left To Say”. Mais um êxito, outra conquista. Expondo êxitos e sem deixar a azáfama baixar, ecoava “I’m Ok, I’m Alright”, regressando ao seu disco de estreia numa versão em tom acústico que, quase poderia ser considerada um dueto, com o próprio público. Sem espaço para pausas, finalizava uma acústica com outra bem conhecida. Uma cover de “Stand By Me”. Permanecendo no primeiro disco, a artista continuava a recordar os temas que a conduziram para o trilho onde se encontra com “No No No No”, seguida por mais uma cover, desta vez, do padrinho do soul, James Brown. Era com “I Feel Good” que o público se movia bem motivado por um groove espirituoso. A jovem continuava a seduzir a multidão quando surgia nova ovação oferecida por “Busy For Me”, o seu segundo êxito de carreira, com refrão novamente dedicado à plateia. “If You’re Good To Me” encerrava a primeira parte da sua atuação. Incontestável seria a satisfação do público que pedia mais uma.

Regressando ao palco, Aurea interpretava mais três, terminando com “Watch and Learn”. Simplicidade, espontaneidade e uma interação genuína marcaram mais uma atuação de Aurea.

A encerrar a noite, o palco do Festival do Crato recebeu novamente Stereossauro, desta vez sem Reininho e companhia, onde provou mais uma vez o porquê de ser campeão mundial de scratch. 

– Texto: Ana Camilo

Imagem: Festival do Crato (consulta a galeria)

31/08/2013

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